Resenha: O Sorriso da Hiena - Gustavo Ávila.

25 outubro 2017

O Sorriso da Hiena
Autor: Gustavo Ávila.
Páginas: 266.
Editora: Verus.
Nota: 4/5
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É possível justificar o mal quando há a intenção de fazer o bem?
Atormentado por achar que não faz o suficiente para tornar o mundo um lugar melhor, William, um respeitado psicólogo infantil, tem a chance de realizar um estudo que pode ajudar a entender o desenvolvimento da maldade humana. Porém a proposta, feita pelo misterioso David, coloca o psicólogo diante de um complexo dilema moral. Para saber se é um homem cruel por ter testemunhado o brutal assassinato de seus pais quando tinha apenas oito anos, David planeja repetir com outras famílias o mesmo que aconteceu com a sua, dando a William a chance de acompanhar o crescimento das crianças órfãs e descobrir a influência desse trauma no crescimento delas. Mas até onde William será capaz de ir para atingir seus objetivos? Em O sorriso da hiena, Gustavo Ávila cria uma trama complexa de suspense e jogos psicológicos, em uma história que vai manter o leitor fisgado até a última página enquanto acompanha o detetive Artur Veiga nas investigações para desvendar essa série de crimes que está aterrorizando a cidade. 

Oi, gente.

A resenha de hoje é de um livro de suspense policial nacional muito conhecido e queridinho no meio literário.


O livro O Sorriso da Hiena, escrito por Gustavo Ávila, foi lançado de forma independente pelo autor em 2015 e depois de fazer  um sucesso estrondoso acabou por chamar a atenção de grandes editoras, até que em em 2017 teve seus direitos comprados pelo Grupo Editorial Record e foi publicado pela Editora Verus em uma edição novinha em folha e com uma sutil repaginada.  Já na capa há um blurb de Raphael Montes, outro grande escritor nacional de suspense e a orelha escrita por Marcelino Freire.

Além de que, a obra já teve seus direitos de adaptação comprados pela TV Globo e possivelmente será uma minissérie ou novela imperdível, então não deixa de conferir essa resenha!




O enredo é contado por um narrador onipresente e onisciente, em terceira pessoa,  e passeia sobre a história de três personagens principais, intercalando entre as três perspectivas em relação a um determinado fato. São eles: David (o provável assassino cruel e incompreendido), William (o renomado psicólogo infantil) e Arthur Veiga (o detetive antissocial).  Então, os destinos desses homens  se cruzam inesperadamente quando uma onda de desaparecimentos/homicídios começa a ocorrer, deixando todos os habitantes da cidade assustados e preocupados, pois não se tratam de crimes comuns. Em todas as cena dos crimes há apenas três cadeiras, uma língua humana cortada e uma criança de oito anos deixada órfã com um agasalho sobre as costas. Os casais desaparecidos são sempre diferentes, seja por orientação sexual, classe social, profissão, domicílio. Não há pistas além das curiosas cenas de crime e de um crime semelhante que ocorreu há 24 anos.



Assim sendo, Arthur Veiga, o famoso detetive, responsável por solucionar grandes casos, é chamado para desvendar uma cena de crime curiosa, em que nenhuma das pistas conversa, apesar de sobrepostas e rearranjadas diversas vezes, nada faz sentido. Tendo, pois, como única pista concreta, as crianças que testemunharam os crimes e agora estão traumatizadas e não querem falar sobre o assunto, o detetive as encaminha para uma consulta com o notável psicólogo infantil, William.

A partir desse momento a trama começa realmente a se desenvolver, tomando força total, vez que o possível assassino entra em contato com o psicólogo para lhe fazer um acordo em nome da ciência. A proposta é de que os crimes serem testemunhados pelas crianças para que se possa desenvolver um estudo através do acompanhamento das mesmas até a fase adulta, analisando seus comportamentos pós-trauma e se apenas um episódio violento seria capaz de mudar suas vidas para sempre e transformá-las em futuras criminosas.



Dessa forma, podemos acompanhar durante a narrativa os dilemas morais enfrentados pelo psicólogo, seu esgotamento mental, a dubiedade entre aceitar ou não aceitar o acordo, seu senso moral, seu lado humano e claro, seu lado mais cruel e egoísta, quando usa a ciência pra justificar seus atos.

Enfim, essa é a história do livro, muitos crimes, muitas mortes, eu contei umas 20, pelo menos.




O livro discute muito até que ponto o assassino é culpado pelos crimes que comete, se ele já nasceu com a crueldade ou a culpa é do meio em que cresceu, se os mais cruéis assassinos vêm de uma classe mais alta ou mais baixa, se o dinheiro resolve ou só piora a situação, se é pior ser criado por pais violentos ou não ter pais. Discute também a segurança pública no país, a violência, a indignação seletiva, os diversos problemas que enfrentamos na infância, a educação, o sistema carcerário, a política de combate às drogas, o alcoolismo, a violência doméstica, a burocracia na resolução dos crimes, a homofobia, a loucura e a sanidade, a moral, a ciência, as coincidências, as patologias criadas e adquiridas, a ética profissional, e outros vários assuntos de suma importância para a sociedade em que vivemos.




No mais, é um livro bom, com uma narrativa bem arranjada, fatos interligados e uma trama de suspense que não deixa a desejar em comparação com os livros gringos. A edição é bonita, com folhas amareladas e grossas, espaçamento adequado e um layout que não cansa os olhos, muito capricho mesmo da editora com detalhes.  Cada capítulo começa com o desenho de uma Hiena (significado que descobrimos ao longo do texto) e as cenas se intercalam através de uma rosa, que também tem uma simbologia muito importante para o texto. É uma leitura de extrema importância na literatura nacional? Sim. O livro é bom? Sim. É o melhor livro de suspense policial que eu já li na vida? Não, está muito longe de ser.



Não é um livro perfeito, nem é o melhor livro que eu já li. Fui com grandes expectativas porque amo livros do gênero e a narrativa logo atraiu a minha atenção, li muitas resenhas falando maravilhas e não queria ficar de fora, mas todo livro tem defeitos e eu vou dizer algumas coisas que eu não gostei. Deixando bem claro que são gostos pessoais e você pode adorar ou ignorar, mas eu acho necessário ressaltar.

Primeiro: há muitas pessoas fumando no livro, a todo momento, em todos os lugares, em todas as cenas. Há também várias pessoas bebendo e dirigindo logo após, eu sei que é um livro sobre assassinato e crimes horríveis, sei também que isso pode funcionar como uma característica para deixar o personagem mais humano, pouco confiável. No entanto me incomodou profundamente aquele tanto de cigarro e fumaça, em algumas horas eu ficava meio sufocada, para falar a verdade.

Segundo: Por que uma pessoa não pode ser só inteligente? Ela tem que ser a mais famosa, mais notável, mais reconhecida, gênia da ciência ultra super mega blaster inteligente. Tem que ser a melhor e tem que se afirmar como melhor, a todo momento, mesmo que não precise. Alguns personagens foram incluídos no texto só para fazer parecer que os protagonistas são os mais inteligentes do mundo. Não basta ser inteligente, a pessoa tem que, no período de 8 anos apenas, ter feito 8 semestres de medicina, se arrependido, começado psicologia, ter feito mestrado e doutorado na área, publicado livro, ser bem sucedido e altamente reconhecido no meio. Eu realmente não sei como isso é possível. E me admira muito que pessoas tão inteligentes tomem decisões tão burras. Só não entendo.

Terceiro: Estereótipos, muitos estereótipos. Parece que o autor quis desmitificar ideias a respeito de determinadas coisas, sendo que só piorou o entendimento e pareceu até um pouco preconceituoso. Por exemplo, o detetive tem síndrome de asperger, e durante todo o livro todo mundo precisa ficar dizendo isso diversas vezes, questionando a capacidade dele de fazer as coisas, ao mesmo tempo em que o autor parece que "pegou" características gerais de uma pessoa com essa síndrome e colocou no livro, enfatizando-as à exaustão. Não precisava. Outra, que o assassino fica dizendo que é um monstro, mas também não procura melhorar, nem para de matar as pessoas, então também não precisava ficar falando só disso. Os personagens não têm um arcabouço complexo, com reminiscências familiares e características peculiares, eles mais parecem um emaranhado de estereótipos.

Quarto: Críticas vazias e superficiais. Algumas críticas apenas são colocadas no livro sem serem realmente desenvolvidas, é a crítica pela crítica, o que a torna mais senso comum do que contribuição social. É um ponto que venho notando nas obras nacionais ultimamente, alguns autores se utilizam de tabus somente para "jogar" a crítica ali, sem necessariamente esta contribuir ou ter a ver com o enredo propriamente dito. Creio que se o autor não tem pretensão de desenvolver determinado argumento posteriormente, nem a crítica serve para construção de enredo ou personagem, ela não deveria existir nessa história.

Quinto: Por fim, eu não entendi muito bem o que o autor quis trazer com o livro, qual a mensagem principal. Porque o livro não tem um final que resolve tudo. O autor apresenta um ponto na história, desenvolve ele, "mata" 20 personagens para comprovar o ponto, faz diversas críticas desnecessárias para o contexto e simplesmente os crimes não são totalmente solucionados. Ninguém diz claramente qual foi a contribuição da pesquisa realizada pelo psicólogo, apenas que foi uma grande contribuição para a academia, que contribuição? Eu li duzentas e tantas páginas e cadê? Eu quero ver o estudo se ele foi assim tão importante, já que tantas pessoas morreram para que ele fosse feito, supostamente. faltou explicação nesse ponto. E os tempos decorridos são muito grandes e pouco explanados. Não sei se isso foi bom ou ruim.




Enfim, é um bom livro, uma boa proposta de enredo, com algumas falhas na trama, mas que vale a pena ser lido, nem que seja para que o leitor possa emitir sua verdadeira a opinião sobre ele depois. Não leia querendo perfeição, porque você não vai encontrar. Também não é um livro de terror e as coisas não são claras nem explicadas, cada um interpreta como quer, dando margem a erros crassos, mas isso pode ser superado, quando se analisa o todo.

Espero aparecer em breve com mais dicas de livros nacionais.

Até mais,


Melissa.

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