Resenha: Traços - Eduardo Cilto.

16 setembro 2017

Traços
Autor: Eduardo Cilto. 
Páginas: 272.
Editora: Outro Planeta.  
Nota: 2/5
Quando Matheus aceitou acompanhar Beatriz na festa do colégio, jamais imaginou que terminaria a noite participando de um ritual místico (de veracidade duvidosa) para saber o que o futuro reservava para ele e a amiga. Assim que as velas que os cercavam se apagam e uma resposta esquisita encerra a cerimônia, Beatriz leva o resultado a sério e entende que deve fugir da cidade pequena para se encontrar com seu destino nas ruas da capital de São Paulo. Perdido no meio de tudo, Matheus é obrigado a repensar o que considera certo ou errado quando é convidado para participar do plano maluco de fuga e decide que precisa passar por cima dos limites impostos pelos pais para finalmente ser capaz de entender quem realmente é. Os dois amigos partem sozinhos para São Paulo e carregam consigo não somente as malas nas costas, mas também o peso de todos os problemas que achavam que estavam deixando para trás. Sem ter ideia do que estão enfrentando, Matheus e Beatriz descobrem mais sobre si mesmos, criam, quebram laços e encaram desafios que jamais pensaram que confrontariam enquanto contavam as moedas para realizar esse grande plano que iria mudar suas vidas para sempre.

 Olá, gente!


A resenha de hoje é de um livro nacional de booktuber, que foi uma grande surpresa pra mim.



Bom, vamos começar pelas coisas boas. O livro é um nacional, e só por isso vale a pena ser lido, pois devemos dar uma chance aos livros de autores brasileiros, que muitas vezes passam despercebidos nas prateleiras em meio aos lançamentos estrangeiros de capas maravilhosas e recomendações de autores aclamados. 

É um livro escrito por um booktuber, assim já imaginamos que o livro deve ser uma maravilha, porque uma pessoa que leu muito e teve muitas experiências literárias, provavelmente é um ótimo escritor e merece ser lido. Além de que, ver seu trabalho reconhecido e publicado por uma grande editora é muito gratificante para todos nós que falamos sobre livros na internet.

A ilustração da capa é muito bonita e bem-feita, um tanto enigmática e você se pega pensando nos segredos escondidos entre as páginas desse livro. Páginas estas que são amareladas e grossas, o que facilita muito a leitura. Também possui letras de um tamanho razoável e espaçamento adequado. É um livro dividido em poucos capítulos e narrado em primeira pessoa. 

Creio que é um livro infanto-juvenil, porque eu não sei, realmente, em que outra categoria devo encaixá-lo. E o indico  para aqueles que estão abrindo os olhos para o mundo da leitura agora, aqueles que ainda não tiveram muitos contatos com narrativas complexas e personagens profundos.



Pronto, encerraram-se, definitivamente, as coisas boas.

Agora, sentem-se, que eu vou destrinchar aqui tudo aquilo que não gostei. Porque esse livro me surpreendeu, sim e muito, mas de uma maneira muito negativa.

Primeiramente, não há linearidade nem coesão na narrativa. Eu terminei o livro sem saber o que autor quis dizer com ele. Para mim, parece que o autor, como uma pessoa que leu muito na vida, se "apropriou" de alguns maneirismos literários e simplesmente "jogou" na história, sem saber se aquilo funcionária ou não (NÃO FUNCIONOU). Colocou diversos assuntos considerados tabus que não contribuíram em absolutamente NADA para o desenvolvimento da narrativa ou construção de personagens. A história que se chama Traços mais parece uma colcha de retalhos muito mal costurada (um serviço muito "labrojeiro", como a gente fala aqui na minha terra).

Eu ia falar da história, mas o livro não tem história. O autor quis tanto impactar, emocionar, que acabou colocando algumas coisas demais e outras de menos. Colocou fatos e pontos demais que ele não conseguiu desenvolver, então as coisas só ficaram ali "pairando" sem serem explicadas de verdade. Enquanto outras coisas que mereciam ser explicadas, isso é uma questão de atenção para com o leitor e carinho para com a obra, não foram de jeito nenhum! Assim, aquelas coisas que mereciam explicação foram soterradas por assuntos "chocantes" que o autor quis colocar ali para ver se dava aquele famoso "tchan" e não deu.



Infelizmente.

Vou exemplificar: na capa podemos ver uma menina e um menino na sacada de um prédio. Ok. A sinopse nos leva a entender que se trata da história de Beatriz e Matheus. Não é. Não é a história de Beatriz, nem da menina da capa, e até agora estou pensando se é a história de Matheus, porque o livro é uma sucessão de aleatoriedades sem nexo e que não estão ligadas de forma alguma.

Aí você me diz "É uma questão de sentir". Sentir o que? Raiva? Frustração? Pena? Tristeza? Só se for isso, desafio uma pessoa que já tenha lido um bocado de coisa a ler esta belíssima obra da literatura nacional e não ter uma síncope na décima página.

Mas tudo bem. Esse pode ser um problema meu, e entendo, caro leitor, se você amar o livro. Pois como seres humanos que somos, temos diferentes experiências de leitura e podemos enxergar as coisas cada um a seu modo. No entanto, existem padrões básicos na estrutura de um livro a serem seguidos. Requisitos mínimos. E esse livro peca muito nesses aspectos.

Além de que, a revisão desse livro deixou muito a desejar. Muitas frases não terminadas. Letras faltando. Parágrafos vagos. Palavras sobrando. Contexto inexistente. Plano de fundo insosso. Personagens mal construídos. E um monte de outras coisas que me dão vontade de chorar de dor.



E ainda sobre os personagens? Ruins. Bem ruinzinhos mesmo. Já li livros infantis sem diálogos com personagens mais discerníveis e atuantes do que os que eu li nas quase trezentas páginas desse livro. 

Primeiro existe Matheus, talvez a única constante enquanto presença nessa história. Matheus não tem personalidade, é ingênuo, chato, forçado, falso nerd, inseguro, enfadonho, mimizento. Matheus, que em alguns momentos é destemido e em outros é um zé ninguém babacão. Você nunca sabe como ele é de verdade. E dá vontade de saber? Não. Matheus é chato demais e desinteressante. Os problemas dele não me dizem respeito, as dúvidas dele me fazem revirar os olhos e as palavras me fazem tapar os ouvidos. Matheus que acredita em "friendzone", que deixou tudo que acreditava por espontânea vontade porque pensava que Beatriz poderia lhe amar, mas ela não o fez e ele ficou com muita raiva. Matheus que fala "mas nem todos os homens" e se acha no direito de dissertar com propriedade sobre assuntos que ele não conhece, e diz para as meninas "você é diferente das outras, porque você gosta de XXX". Matheus que me fez questionar minha esperança em um mundo melhor.

Beatriz, azeda, muito forçada, mimada, pedante, egoísta, mesquinha e tão bobalhona que... SOCORRO!! Beatriz que sonha em sair da cidadezinha em que mora e "arrasta" Matheus junto, mas nunca está satisfeita com nada. Beatriz que é vazia e não tem qualidades, como qualquer outro ser humano teria. Beatriz que só pensa em si, mas da qual nunca sabemos os pensamentos.

Samantha, que é a ideologia de "mulher perfeita" que aparece somente para salvar o nosso herói das garras da maldosa Beatriz. Samantha que surge do nada, que foi esquecida e somente lembrada para fazer "crescer" o personagem principal e depois é colocada no cantinho escondido da sala. Samantha, que é o estereótipo dos estereótipos, menina bacana que estuda, trabalha, cuida do pai doente, lê livros, quadrinhos, é dona de casa, magra, branca, loira, olhos verdes, camisa com "Bazinga!" escrito. Samantha, que dá a vida pelos outros e simplesmente desaparece. Samantha que é a pessoa junto a Matheus na capa do livro, mas que em nenhum momento é citada na sinopse. 


*Perdoem a sombra na foto, ainda estou aprendendo*

Resumindo, esse livro tem: sonhos loucos com igrejas pegando fogo, fuga de casa, violência e abuso sexual, drag queens, hotéis, sapos coaxando de maneira estranha, velhos loucos, pais relapsos, crianças com ursos em corredores escuros, cachorros babões, lagos, amigos bruxos, festas juninas, ataques nervosos, patricinhas fofoqueiras, youtubers, sequestro, ratos, boates, road trip, bruxas, fogueiras, rebelde, marvel, Crime e Castigo, furtos, falsidade ideológica, polícia, floresta, jogos mortais, trilha, estrelas, frases de efeito, filosofias, coincidências surreais. E, depois de tudo isso, o livro não tem final. Isso mesmo: não faz sentido e não tem final. Nada, necessariamente nessa ordem.

Assim, essa foi a resenha. Não gostei do livro. Da história ou dos personagens. Talvez eu seja muito "cri-cri", mas foi o que eu achei, e pelo que eu vi por aí, muitas pessoas também. 
Fiquei muito feliz de um booktuber ser publicado, mas esperava muito mais do livro do que uma narrativa sem coerência, mal escrita e forçada, com personagens sem graça e sem sentido, uma história sem apelo. 

Pedindo aos céus para o livro melhorar...Não teve jeito!

Por fim, creio que é ótimo que as editoras estejam procurando autores nacionais entre aqueles que "supostamente" mais entendem de livros. Sei que esse mercado está abrindo as portas agora e que toda chance é bem-vinda. Porém, como leitores, merecemos mais respeito, mais verdade, mais cuidado com o que se publica e como se publica. Esse é mais um exemplo de que nem todo mundo nasce com talento para a escrita, às vezes é preciso escrever muitas coisas até que uma história seja contundente. 

Esse foi o meu desabafo, como disse, indico somente para aqueles com 0 contato com a literatura ou aqueles que leram pouquíssimas coisas, pois não vão ter com o que comparar, e não vão ficar reparando nos defeitos da história. Ou se você quiser ler, ótimo! Mas leia por sua conta em risco.


(talvez eu tire umas fotos bonitas do livro pra balancear essa resenha)


Até mais,

Melissa.



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2 comentários:

  1. oiii tudo bem ?

    algum tempo atras estava interessada em ler mais com o tempo fui perdendo a vontade , como você disse temos que da uma chance para os autores nacionais pena que esse não deu certo quem sabe na próxima não e ?
    gostei muito da resenha você foi completamente sincera no seu ponto de vista e achei ótimo isso parabéns.

    bjss

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  2. Que pena que você não gostou da leitura, chato quando a gente gostaria de curtir um livro e simplesmente não rola, né?
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

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